Veja bem, depois que o meu pai faleceu eu comecei a lidar com o que
eu chamei de Burocracias da Morte, são muitos detalhes e coisas que
muitas vezes incomodam os familiares do morto, visto que, bom, quando se
está de luto, em choque pela partida de um ente querido, ninguém quer
ficar pensando em coisinhas como velório, flores, tipo de caixão,
cremação, missa, padre, pai-de-santo, quem avisar, quem chamar para o
velório, como comunicar, dentre outras coisas.
Há muitas
burocracias da morte a serem solucionadas quando você se for e, talvez,
seja o caso de deixá-las por escrito, afinal, a partida é sua, então, dê
suas últimas cartadas. Você pode pensar que há uma certa morbidez em
tratar com praticidade a própria morte, creia-me, ainda que tenha medo,
se você deixar aos seus supérstites algumas orientações, os
procedimentos a serem adotados diante do seu falecimento tornam-se menos
pesarosos para quem fica.
Uma das coisas que me peguei pensando, depois de um episódio sui generis ocorrido no velório do meu pai, foi: Que música deveria tocar no MEU velório?
Bom,
quem me conhece sabe o tanto que música é um ponto importante na minha
vida, faz parte até dos meus processos mnemônicos: lembrar cores,
climas, pessoas, fatos, lembranças, sentimentos, sensações... E logo eu
que tenho música para quase tudo na minha vida, então, depois da cena
ocorrida no velório, por que não ter músicas específicas para o meu
velório? Quem sabe uma lista das cinco mais da morte, no melhor estilo
Rob Gordon?
Enquanto eu pensava nas músicas, muita coisa
veio em mente: fazer piadas infames; tocar algo meio travesti; algo
triste; algo feliz, muitas opções brotaram na minha cabeça. Enquanto eu
procurava, achei até uma lista das piores músicas para tocar em velórios
e caímos na gargalhada, eu e o marido, ao nos depararmos com a
possibilidade de tocar Disco Inferno durante a cremação de alguém (burn,
baby, burn)!
Há quem ache tolice, há quem pense que se a
pessoa já morreu quem deve escolher os temas musicais, se for o caso, é a
família e amigos sobreviventes, afinal, a pessoa já se foi, então, ela
não tem mais que dar opinião nenhuma.
Eu não concordo com
isso, afinal, como eu disse, música não é um detalhe para mim. Não é
algo à toa na minha vida e não gostaria que fosse na minha morte e, tem
outra coisa, não estou lá muito inclinada a repetir a gafe cometida
durante o velório do meu pai.
Talvez eu faça uma lista
hoje e, passado uns anos, ela já não faça mais sentido. Para o momento,
eu prestaria uma homenagem aos meus queridos familiares e amigos;
amanhã, talvez coloque outras músicas, que simbolizem cada um dos meus
filhos, caso os tenha. O tempo é fluido e, como dizia meu pai, citando
Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. E já que, muitas
vezes, a trilha sonora da minha vida aconteceu espontaneamente, sem que
eu tivesse muito controle, nada mais justo que eu decidir a trilha
sonora da minha morte.
Segue aí o meu top five:
- Friends will be friends - Queen
- In my life – Beatles
- Je ne regrette rien – Edith Piaf
- Rain Song– Led Zeppelin
- Don’t Fear the Reaper – Blue Öyster Cult