Era tempo já. O luto se esvanecia e havia algum tempo que ela não aparecia. Ouvi uma música, e de repente, eu me dei conta de que começava a sentir sua falta.
A luz, o cheiro, o movimento, a sensação de estar caminhando, a falta do frio, o desejo por aquele pequeno canto onde talvez eu avistasse um velho amigo.
Do nada, acordei. Entendi que estava me curando. Que a ferida, ainda que doesse, vinha se fechando. Por isso, essa vontade de caminhar em direção ao inverno, ouvir os corvos cantando na montanha.
Mas eu só entendi mesmo quando a palavra apareceu:
Sehnsucht
Que, diferente de saudade, se refere ao inconsolável desejo por aquilo que não sabemos o quê.
E aí, eu entendi o que senti a vida toda e que, após meses da morte do meu pai, eu voltava a sentir, ainda que numa escala diminuída pela dor.
Sehnsucht é o que eu sinto pelas estradas que não conheço, saudade é o que eu sinto pelo meu pai.
Quem ama a estrada, quem é dono de um coração cigano, gosta de caminhar, permanecer entedia. Quem cria raízes são as árvores. Nós deixamos pegadas no chão.